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Lançamento de livro e depoimentos marcam noite de homenagem a Jean Hébette

  • Publicado: Quinta, 09 de Março de 2017, 17h15
  • Última atualização em Quarta, 17 de Maio de 2017, 15h04
  • Acessos: 813

O programação do II Colóquio Dinâmica Sociocultural na Amazônia, promovido pelo PDTSA, foi encerrado, no último dia 7 de março, com uma noite de homenagens ao professor, pesquisador e militante Jean Hébette. Lançamento de livro, relatos e depoimentos marcaram o momento que destacou a importância do professor para a compreensão do campesinato na Amazônia.

O engenheiro agrônomo Luciano Leal Almeida lançou o livro “O Centro Agroambiental do Tocantins (CAT): a relação entre a Universidade Federal do Pará e o sindicalismo rural”, fruto de sua dissertação de mestrado, defendida em 2011. Almeida é egresso do Curso de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e servidor da FUNAI (Fundação Nacional do Índio), em Brasília. A obra foi publicada pela Editora Primus, de Curitiba (PR).

No evento, Almeida apresentou o livro, fez relato de sua produção em campo e agradeceu a contribuição dos professores do PDTSA em sua formação acadêmica. O lançamento da obra ocorreu no encerramento das atividades do segundo dia do II Colóquio Dinâmica Sociocultural na Amazônia, promovido pelo PDTSA, iniciando o ano letivo da nova turma do programa. O livro de Almeida ressalta o trabalho desenvolvido pelo professor, pesquisador e militante Jean Hébette, principal responsável pela criação do Centro Agro-Ambiental do Tocantins (CAT), do Laboratório Sócio Agronômico do Tocantins (Lasat) e contribuiu para o fortalecimento da Escola Familiar Agrícola (EFA), espaços relevantes para a organização política dos camponeses e à formação de um pensamento crítico engajado, além de ter contribuído para a fundação da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará – e dos cursos de Ciências Sociais e Educação do Campo.

Após viver quase meio século na Amazônia, Jean Hébette se tornou referência no cenário nacional e internacional em pesquisas sobre a Amazônia, especificamente na temática do campesinato, grupo social pelo qual lutou em defesa dos direitos e da dignidade humana.
Hébette em sua extensa produção bibliográfica registra mais de 100 títulos em que foi autor ou coautor, entre eles, o clássico Cruzando a fronteira: 30 anos de estudo do campesinato na Amazônia.

Durante a homenagem em memória de Hébette, o agrônomo francês Emmanuel Wanberg, o Mano, radicado em Marabá há mais de 40 anos, acrescentou relatos de experiência de luta na criação do CAT e comentários sobre o trabalho e a vida de seu amigo, o pesquisador e professor Jean Hébette (15 de fevereiro de 1925 - 11 de novembro de 2016). Mano falou do compromisso de Hébette na formação acadêmica de alunos e professores e na atuação em favor de uma sociedade mais justa na região Norte do Brasil.

Emmanuel Wanberg, um dos criadores e coordenadores da Comissão Pastoral da Terra Regional (CPT) em 1976, e de articulador da (re)criação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da Região Sul e Sudeste do Pará, leu um e-mail fictício, que teria sido enviado pelo Arcanjo Gabriel comunicando a chegada de Hébette ao paraíso. Na chegada do pesquisador aconteceu uma festa. “Um imenso bolo de macaxeira tinha a forma do Brasil e todos queriam vê-lo dividido. O forró correu até ao amanhecer”, dizia um trecho do e-mail.

A professora do PDTSA Edma do Socorro Silva Moreira fez algumas considerações sobre seu orientador, Jean Hébette. Edma foi orientanda de Hébette no mestrado em Sociologia, desenvolvido no Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Pará com a dissertação Tradição em tempos de modernidade: reprodução social numa comunidade varzeira do Rio Xingu/PA em 2002; e no doutorado em Ciências Sociais, na UFPA com a tese Movimento Social Amazônico em defesa de territórios e de modos de vida rurais: estudo sociológico no Baixo Xingu, em 2008.

Texto lido pelo agrônomo Mano em homenagem a Hébette

“,,,A festa rolou a noite toda: o Jean Hebette chegou. A porta do paraíso já estava aberta, fato raríssimo autorizado por São Pedro; só se tiver muitas peixadas dentro do céu: os sindicalistas do paraíso tinham organizados um abaixo-assinado! Uma multidão estava na espera. Uma imensa faixa encomendada por Jean Wambergue e pintada por sua nora, a Luza, dizia simplesmente “bem vindo, Jean, teu lugar agora é aqui conosco”.
O Manoel Monteiro de Itupiranga, o Almir de São João deram as boas vindas relembrando os fatos que fizeram o Jean ganhar seu lugar junto a eles. Não é necessário citar esses fatos pois até as pedras do mundo mineral sabem disso e poderiam falar. Um banner cobrindo a metade do céu organizado pelo Jean Pierre Leroy da FASE, a Iza Cunha da CPT e o Rosinaldo do LASAT citava a longa lista dos seus escritos. Todas as obras do Jean eram distribuídas de graça para quem quisesse; só tinha que ter dois compromissos: o primeiro ler pelo menos uma obra (ninguém podia alegar que, no Éden, tinha trabalho de mais ou que não tinha tempo!!!!) e o segundo ser padroeiro forte de pelo menos uma ação da reforma agrária no mundo.  
O arcanjo Michel organizou a fila dos abraços; foram vistos  o “Gringo” de São Geraldo, o Joao Canutos e seus filhos de Xinguara, o Expedito de Rio Maria, o Benezinho de Toméaçu, o Virgilio de Mojú, o Gabriel Pimenta de Marabá com o Dede e sua familia, o Arnaldo de Eldorado com o Regino e o Oziel Pereira, o Fusquinho de Parauapebas, o Ze Claudio com a Maria, o Geraldinho e o Zé Piau de Nova Ipixuna, o Cesinho com seu pai Sebastião e as duas santinhas, Edileuza e sua irmãzinha de Goianésia, o Dezinho e o Ribamar de Rondon, o Zezinho da Marina de São João: esses são aqueles que se conseguia enxergar pois a fila se perdia nas nuvens do céu e foi muito demorada. O Jean falou muito emocionado: longe da região de Marabá por mais de dois amargos anos não sabia que o Manoel e Almir o tinham antecipado n o céu; falou pouco e agradecendo dizendo que estava com muita saudade de todos, que fazia tanto tempo !!!...e que agora ia ter todo tempo do mundo para botar os assuntos em dia.
O Josimo, a Dorothy e Adelaide organizaram o cocktel; distribuíram caipirinhas e sucos de frutas para quem queria. O imenso bolo de macaxeira não tinha vela pois agora no paraíso não precisava mais contar os anos; esse bolo tinha a forma do Brasil na cor da terra que todos queriam ver dividida. O foro correu até o amanhecer.... O bom São Pedro estava preocupado: o Jean estava mudando até o céu; (sorte para nos da terra!!!!!)”
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Em julho 2914, fui na Bélgica visitar o Jean junto com minha Socorro, com minha mãe e meu irmão Jean também, todos bem conhecido do nosso Jean. Nos todos ficamos chocados de encontrar ele em cadeira de roda não conseguia se levantar, com dificuldade de falar: o mal de Alzheimer estava progredindo violentemente. Mas o sorriso que ele deu quando nos percebeu foi aquele que todos conhecem. Fomos no quarto dele. Ele perguntava muitas coisas; pedia noticias dos amigos de Marabá; ele tinha dificuldade de acompanhar os relatos. Várias e várias vezes, seu olhar azul se perdia no espaço: filmes e filmes de lembranças deviam passar na tela da sua vida. Nos deixamos ele no refeitório para a janta com a claro impressão que o corpo dele estava na Bélgica mas a cabeça e o coração estava no Pará.
Alguns dias depois estava com a Socorro e meu irmão o Jean, em Paris, visitando o Henri des Rosiers; comentando nossa visita ao Jean, o Henri com seu corpo pela metade paralisado mas com espirito muito vivo, ele acrescentou: “estamos vivendo aqui, mas estamos como peixe fora da água; nossa água viva esta no Sul do Pará!!!!
Encontrei o Jean logo que cheguei no Brasil no dia 26 de julho de 1975: foi ele que, tendo um compromisso no Rio como professor do NAEA/UFPA, aproveitou para me deixar no CNFI, escola de língua e aculturação para agente de pastoral que chegava no Brasil.
Foi o Jean que encontrei nas pesquisas que fazia junto com Rosa Azevedo na região de Marabá. Muitas vezes, encontrei ele quando nos criamos a CPT  Regional Norte II e  a de Marabá junto  com Dom Alano, a Dorothy com sua colega Rebeca, Ademir Martins, Luza, Orlando Solino: Marabá era e ainda é uma mina para bamburro para qualquer pesquisa sobre o campesinato.
Foi o Jean que encontrei como conselheiro e colaborador na formação da CPT regional Norte quando fui, em 1981, eleito coordenador da Reginal Norte II: ele estava nesse Conselho  entre muitos outros, o futuro vereador  Humberto Cunha, a pastora Marga Roth, o Mateus Oterloo, o advogado Paulo Fontelle, Carlos Sampaio, José Carlos Castro, Egídio Sales  que juntos com os movimento sociais e a CPT Regional criaram, no mesmo ano, a articulação do Movimento de Libertação dos Presos do Araguaia-MLPA.
Foi o Jean que encontrei quando casei com a Luza em1981 e que me deu todo seu discreto mas evidente apoio; numa viagem que fez na Europa, teve a delicadeza de  visitar meus pais na França. Foi o Jean que estava lá quando nasceram  a Ulda e o João. Foi o Jean que estava comigo quando a Luza faleceu na Ordem Terceiro em Belém no dia 2 de Novembro 1994. Foi o Jean que veio em casa muito alegre para conhecer minha noiva Socorro junto com seus dois filhos Bia e Fabio Junior.
Foi o Jean que encontrei quando junto com Almir Ferreira Barros, na época representante regional da FETAGRI, procurávamos uma entidade de apoio para acompanhar os problemas enfrentados pelos posseiros do Araguaia-Tocantins. O Jean com seu cúmplice Raul Navegantes formando a coordenação do NAEA, nos convidou junto com as recentes direções dos STTR dos sudeste paraense para um seminário de dois dias em 1987 que resultou no esboço do futuro programa do Centro Agro-ambiental do Araguaia Tocantins.
Foi de novo o Jean que encontramos na criação da Fundação Agrária do Tocantins Araguaia-FATA para dar apoio aos agricultores organizados nos STTR da Região Sudeste, composta, na época, apenas de 4 municípios; hoje são 14. Os presidentes dos STTR das novas diretorias combativas recentemente eleitas eram Almir Ferreira Barros para São João, Manoel Monteiro para Itupiranga, Maria de Jesus Aguiar de Jacundá e Antonio Chico de Marabá; marcaram a assembleia para o dia 1 de agosto de 1988, no terreno da FATA de baixo das arvores na beira do Itacaiunas; eles formaram a primeira direção da FATA junto com o Jean.
Foi Jean com seu cúmplice Vincent de Reynal que articulou os pesquisadores comprometidos com a causa camponesa no Laboratório Socio-ambiental do Tocantins-LASAT e criou o primeiro curso de especialização DAZ  para Agrônomos do campo.
A partir da criação do CAT com suas dois braços  a FATA e o LASAT, o Jean raramente ficava mais de um mês fora de Marabá, principalmente quando foi decidido a construção do Centro de Convivência da FATA/LASAT no Km 9 da Transamazônica.
É o Jean que foi com o Almir presidente da FATA e o Alex Fiuza Pro-reitor de Extensão da UFPA ate a comunidade europeia em Bruxelles para apresentar com sucesso o orçamento e a planta dos prédios do CAT que foi inaugurado em Julho 1992.
A partir dai o Jean não “desgrudou” mais de Marabá: estava lá na fundação da Cooperativa Camponesa do Araguaia Tocantins-COOCAT em 1993, na criação da primeira Escola Família Agrícola em 1996, no primeiro Fórum da educação do Campo em 1997.
Passaram uma média de 1500 pessoas por ano na FATA; duvido que se esqueceram o Jean
O Jean foi o maior intelectual orgânico e o maior promotor de cidadania do campesinato da nossa região; marcou uma geração de sindicalistas e pesquisadores do campo; nos temos um padroeiro seguro e forte com toda sua tropa lá no Alto: não vamos deixar cair a peteca pois eles estão de olhos e zelando da gente!!!!
Emmanuel Wambergue

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